domingo, 15 de junho de 2008

PIXOXÓ - A MARCA DE UMA PATA IMPRESSA NO CORAÇÃO

Pixoxó era uma gata linda e boa, que marcou o começo de meu gosto por gatices.
Eu tinha cerca de 6 anos, e ela era a gata da minha avó. Era uma escama maravilhosa ( gata feia, diziam os desavisados ).
Pixoxó era rueira, safada e desavergonhada, como todas as gatas de seu tempo. Um tempo de gente incauta e ingênua, que achava que os gatos deviam todos ir cuidar de sua vida pelas ruas, e que o mundo não oferecia maiores riscos que uma gravidez indesejada. O que era perfeitamente contornável, afinal, sempre se tinha uma casa ( de preferência, velha ), onde havia uma senhora ( quase sempre velha também ) que adorava gatos e catava todos.
Ela vinha para casa como se fosse para um hotel. Comia, bebia, deitava e rolava, brincava com as crianças, ronronava, se aconchegava e dormia o sono dos justos.
À noite, simplesmente sumia. Ia paquerar, passear, viver sua vida de gata de telhado. Aparecia arranhada, suja, radiante, danadíssima, cheia de graça.
Claro que vez por outra também aparecia com a barriga cheia de filhotes, misteriosamente plantados dentro dela por algum gato "sem vergonha, viralata, aproveitador". Os ditos cujos apareciam aos montes no telhado do quintal, torturando os vizinhos com longas sinfonias de amor. Tempos gloriosos, aqueles.
Minha mãe dizia pra ter cuidado, "eles são traiçoeiros"; meu pai dizia "gato arranha !!!" A filha deles, teimosa que só, já desde pequena gostava de desobedecer e não dava muita bola pra conselho de ninguém que não fosse ela mesma, então... Pegava no colo, agarrava, passava a mão, alisava aquele pelo curtinho e macio, gostava de ver a gata brincar com as unhas tentando pegar sua roupa.
Quando os filhotes nasciam, era uma maravilha. Deslumbrantes olhar aquelas minhoquinhas coloridas de boquinha rosada fazendo miiii... Como eram pequenos, como eram frágeis, como podia ? Será que não quebravam ? Será que dentro deles era igual à gente ? Será que Deus também tinha mandado um anjo trazer a alma deles ? Engraçado como aprendiam tudo tão depressa, como mamavam, como eram rechonchudos, quentes, macios.
A vó não deixava mexer nos gatinhos bebês. "Fica molinho e morrem", dizia. A vó aparentemente não gostava que morressem. Meu olho espantado de criança viu uma vez quando um morreu logo depois de nascer. Viu o destino que lhe deram, destino inglório, como se fora um peixe de aquário ( eu tinha peixes, e eles morriam muito, sendo imediatamente despachados cano abaixo - "o corpo da gente é só uma casquinha" - diziam ). Nunca me esqueci daquela coisinha amarela indo embora, tão rápido, tão cedo, tão breve ( porque Deus faz morrer os gatos e as crianças quando nascem ? porque deixa nascer ? ).
Mas quando os gatinhos cresciam e começavam a andar, era a glória. Pixoxó era uma gata muita dada, e não parecia querer ter muitas preocupações com aqueles pequenos seres miantes. Sumia, desaparecia, passava dia e noite nos telhados da vida. Alegria para mim. Ela não ligava se tirasse os gatinhos das tetas para brincar. Não ligava se eu os pegasse no colo ( apesar da vigilância da avó, que com certeza achava que a neta era muito pequena e faminta e ia comê-los com batatas ). Era uma delícia. Os gatinhos andavam tão bonitinho, corriam um atrás do outro, mordendo seus rabinhos, pulando, dando saltos lindos. Brincavam com as bolinhas de papel que eu fazia, vinham atrás do potinho de leite ( ps ps ps ps ps ps, ensinava a avó a chamar os gatinhos ). Minha avó tinha uma fruteira de plástico azul semelhante a uma pequena jaula, que abria em cima. Era a bolsinha de passeio. Lá iam os gatinhos para feiras e chás imaginários. Passeavam por todas as ruas de Paris, visitavam Narizinho no Reino das Águas Claras ( ok, eu era mesmo maluquinha, e ainda sou ). Gatinhos viajados e sabidos.
Tão viajados e sabidos que um belo dia, pluft !!! Sumiam. Resolviam que iam sair pelo mundo, na certa. Pena que o mundo era tão perto como a casa velha da velha ( maluca, naturalmente ) que adorava gatos.
Pixoxó não ligava muito pra isso. Vivia sua vida de gata que comia sardinha com arroz e dormia numa caixa velha. Andava, passeava, comia, dormia, ronronava no colo. Pixoxó era maravilhosa. Era minha paixão de criança. Uma menina que queria gatos, mas cuja mãe não queria bicho andando dentro de casa.
Infelizmente, como muitos gatos de seu tempo inglório, ela veio encontrar a morte debaixo das rodas de um carro. E deixou dentro de mim uma marca profunda, que eu jamais esqueceria. A marca do gato. A marca de uma pata impressa no coração.

Nenhum comentário: