DUPLO RESGATOFevereiro de 2003, maior calor, minha irmã me chama pelo interfone, pouco antes da meia-noite. Tinha visto uma gata grávida numa rua aqui perto, tentou pegá-la mas ela fugiu. Ela sobe, pega uma caixa de transporte, vai lá correndo mas nada... A gata tinha sumido.
No dia seguinte, de tanto encher meus pobres ouvidos, ela me convence que tenho que ir lá ajudá-la a resgatar a gata. E lá vamos nós... Eu com minha caixa, um pote de ração, dois sachês de pratos favoritos, uma colher, um potinho.
Vasculhamos a rua, e nada. Nem sinal. Até que... Vejo um gato correndo... Um outro gato. Vejo que entrou num terreno que pertence à Petrobrás, e vou até lá para espiar. Surpresa... Não apenas um gato, mas mais ou menos dez deles, entre adultos e filhotes. Dois pretos machos ( beeem machos ) e o resto, todos tigrados, em diferentes tons.
Me dá aquele desespero... Pegar uma gata, tudo bem. Mas onde eu iria enfiar dez ?
Coloco comida e tento fazer amizade com aqueles gatos magrinhos. Vejo uma fêmea peluda grávida, mas minha irmã diz que não era aquela. Todos são muito bravos, todos muito ariscos. Comem com voracidade, avançam na comida, mas mesmo com fome recuam ao menor movimento nosso.
A rua é muito movimentada, e o terreno, bem na calçada. Passa muita gente, a toda hora, os gatos se assustam e fogem. Eu sento no chão, no meio da rua e espero, não me importa mais passar por maluca completa. Só me interessam os gatos. Mas é muita gente, muito movimento. Não consigo nada naquela noite, resolvo voltar no dia seguinte...
E quando volto, menos gatos já me esperavam... Dos filhotes, que eram quatro, um deles bem magrinho, restavam apenas dois. Fico mais desesperada ainda, sem saber o que aconteceu. Alguém colocou macarrão para os gatos, ótimo, penso, ao menos alguém se preocupa com eles...
Coloco mais comida, só que dentro da caixa. Um dos filhotes se arrisca a sair, mas é bravo e assustado, e não consigo fazê-lo entrar. Volto em casa e apanho carne moída crua. Tentador... O filhote entra e fecho a caixa correndo. Ele pula, se joga, dá saltos deste tamanho. Seguro firme a caixa, enfio a colher e o prato numa sacola de plástico, e volto pra casa. Menos um naquele lugar horroroso...
Quando chego em casa solto o bichinho no banheiro, e o pobre coitado parece perdido, sem saber bem o que fazer, onde se enfiar. Tem um olhar de medo, e rosna, assustado. Resolvo deixá-lo quieto. Tem por volta de 5 meses, já é grandinho. Todo tigrado, lindo, narizinho cor de tijolo, delineado com preto...
No dia seguinte volto, resolvida a pegar a gata peluda e grávida, que tinha um olho enevoado. Mas que nada... A gata é extremamente desconfiada, passo horas sentada no chão e nada. Ela chega perto da caixa e rouba a carne, mas não se deixa enganar. Fico doida.
Começo a fazer barulhos com a comida para atraí-la ou qualquer um dos outros, já não me importa mais qual. O outro filhote sumiu, não estava mais lá... Qualquer gato que eu pegasse seria bem vindo e bem pego. Continuo fazendo barulhos e o que vejo ? Uma gata com uma barriga enorme vindo lá de longe, do meio da rua, de outro lugar mais distante, uma gata grávida, mas não qualquer uma...
Aquela gata original, que me fez descobrir a colônia. A gata que minha irmã viu.
Ela parece morta de fome, e eu mostro a carne crua e esfrego dentro da caixa. A gata entra, mas não toda, sai para longe mas volta. Ficamos nesse joguinho, eu esperando o momento certo, porque sei que se errar, já era. Ela entra toda... E... Pronto !!! Peguei !!!
Corro pra casa com aquela pequena fúria nos braços, bufando, rosnando e tentando me bater. Mas estou feliz, consegui !!! Agora são menos dois para viver ali.
Quando chego com a gata e a solto no banheiro, descubro surpresa que o filhote é filho dela... Fico achando que é de uma ninhada anterior, mas sem dúvida é seu filho, porque mal a vê, já corre para ela, para se esfregar, e imediatamente ela se deita e ele começa a mamar. Linda cena...
E assim chegaram Yan Julien ( "presente jovem de Deus" ) e Luciola Annya ( "esperança ressurgida" ), mãe e filho que deram trabalho para pegar, mas que se tornaram gatos felizes.
Yan em poucos dias tornou-se um doce, e hoje é um dos gatos mais apegados e amorosos que eu tenho, é todo dengoso e adora ficar rolando por cima de mim, me dando sua barriguinha linda e cheia de bolinhas, e dando cabeçadas, todo feliz.
Mas Luciola... Nossa !!!
A primeira complicação foi a tão famosa gravidez. Que não era mais nada senão vermes e maus tratos. É de impressionar, porque a barriga era descomunal, como se ela estivesse para parir... Mas no fim das contas não era nada disso. E olha que esperei longo tempo pelos filhotes... Depois fiquei achando que tinham morrido lá dentro... Depois achei que se tivessem morrido, pelo tempo já seriam múmias !!! rs
Bom, a segunda coisa é que Luciola tornou-se uma maluca, uma suicide blonde. Uma madrugada, mais ou menos uma semana depois que os peguei, fui acordada pela amiga Lucy que me ligou com uma dúvida sobre um gato dela. Me deu na cabeça de ir no banheiro dar uma olhada nos gatos e quando abro a porta... quase morro !!! A gata estava no alto da janela, no alto do basculante, forçando a tela !!! E bem na minha frente, ela força a tela e passa para o outro lado, se equilibrando no basculante por um fio. Fico completamente sem ação, sem pensar vou soltando a tela dos ganchos, ponta por ponta, mas quando solto tudo a gata começa a deslizar para fora. Gente... Nunca senti tanta agonia na minha vida !!! Sem pensar, agarro a gata pelas patas de trás, a única parte dela visível agora, e dou um puxão, ela tenta se agarrar e forçar o corpo para fora, mas sou mais forte e a trago de volta. Ela me morde, me bate, me arranha, e a jogo no chão. Olho pra cima, olho pra janela sem tela e abro a porta, não tem mais jeito...
Pronto, está feito... Seja o que Deus quiser, os dois se misturam com os meus gatos. Mas nem preciso me preocupar, Yan fica na sala, mas Luciola...
Desembesta para o quarto de empregada, onde há um nicho no alto ( tipo um armário, só que sem portas ), e não sei como, consegue se enfiar lá. Bom... Ela ficou lá em cima exatamente por três semanas, sem descer, eu colocando água, comida e caixa de areia lá no alto todos os dias.
Depois disso, enchi, toquei para baixo à força, com a vassoura, e enchi o nicho de caixas, para que ela não mais subisse ali. Ela foi para debaixo da mesa da sala, onde viveu por muitos meses. Depois dessa fase, começou a se enturmar, e a perder o medo, e adorava dormir nas cadeiras da mesa, e na maioria das vezes, no sofá. Tinha sua própria casinha, um iglu onde dormia quando estava mais frio.
Nunca consegui tocá-la... Só quando foi castrada, sob efeito da anestesia. E dias antes de sua morte. Sim, pois minha linda flor selvagem se foi no dia 13 de julho de 2004, ceifada em poucos dias por uma insuficiência renal agravada pela FIV. Como era muito quieta e sossegada, não percebi nenhum sintoma de doença, até que um dia a vi cambaleando. Para minha surpresa, consegui pegá-la... E no dia seguinte, apavorada, corri para a clínica, onde foi descoberto que era portadora de FIV ( AIDS felina ), e tinha um quadro já de falência renal. Era um sábado, e na terça, depois de muitas convulsões e sofrimento, resolvi por fim em sua sua luta inglória contra a morte próxima. Com um peso enorme, que esperava jamais voltar a sentir, autorizei a eutanásia.
Ironicamente, em seu último mês de vida, Luciola já não corria para se esconder quando eu chegava perto dela. Havia começado a brincar, a jogar bolinhas e ratinhos por todo canto, a se pendurar no sofá da sala, havia começado finalmente a aproveitar a vida como talvez jamais tivesse feito antes. Estava leve, relaxada, feliz em sua casa. Pela primeira vez, eu a sentia minha... E foi justamente nesse momento, quando mais chance havia de uma aproximação, que a doença a tomou de assalto.
Restou-me o consolo de seu filho Yan, um dos gatos mais carinhosos da casa, que enche meus dias com todo o seu amor.
Nascido em: 18/09/02
Cor: Tigrado
Pêlo: Curto
Raça: SRD
Particularidades: Carinhólatra, cheio de dengos, muito apaixonado e extremamente apaixonante. O gato mais lindo da casa, com seu ar de gato selvagem e temperamento de felino bom. Companheiro fiel do Anakin, namorado eterno da Órion. Um amor de gato, um verdadeiro presente. Perfeito, maravilhoso. Meu gatão delícia. :)
IN MEMORIAMLucíola, mãe do Yan, foi um desses mistérios que a vida nos impõe. Gata brava, arredia, desconfiada e esquiva, só se deixou tocar quando já estava muito mal, às vésperas de sua morte.
No entanto, eu a amava tanto, e admirava tanto seu espírito indomável, que vê-la partir tão cedo da minha companhia encheu meu coração de mágoas e eu só me perguntava: por quê ?
Ela era tão combativa, tão expressiva, tão ardentemente felina. Era também de uma tristeza infinita, que sentia pesar em seu olhar sempre que ele cruzava com o meu. Por causa desse olhar, cheguei a me perguntar se não teria sido melhor que tivesse ficado onde estava. Mas não...
Aquele olhar era apenas um reflexo da vida sofrida, da dura vida que ela teve na rua. Conforme o tempo foi passando, ela mais e mais se adaptava à casa, e mais e mais se via que gostava de cada milímetro dela.
Lucíola amava os sofás, as cadeiras acolchoadas, e acima de tudo, seu iglu. Eu havia comprado o iglu ainda quando Chico era pequeno, para que ele dormisse. No entanto, nunca foi usado por gato algum, antes dela. E não foi usado por nenhum depois dela. Me livrei dele no dia mesmo em que ela morreu.
Ela adorava estar ali dentro, aquecida e tranqüila. Adorava dormir ali, protegida. Era lindo de se ver como ela rolava feliz no forro do iglu e como se esfregava ali, deixando seu cheiro para que todos soubessem que aquilo era só dela. Foi no iglu que se refugiou quando a doença a atacou. Foi lá que se escondeu de mim, só me deixando percebê-la mal quando já era tarde demais.
Paradoxalmente, Lucíola, apesar de nunca me deixar tocá-la ou chegar próximo a isso, parecia gostar da minha companhia. Gostava de ficar no encosto do sofá em frente ao que eu estava, me observando. Gostava de pegar pedacinhos de comida da minha mão. E mais que tudo, me falava com os olhos.
E tanta coisa me dizia aquele olhar, tanto de gratidão, de amor, de um selvagem mas lindo amor.
Um comentário:
emocionante.
a estória dos dois me comove.
como vc disse, pelo menos Lucíola foi feliz no conforto, aconchego, segurança. e antes de partir, mostrou que gostava de você sim!
snif
bibi
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