quarta-feira, 18 de junho de 2008

FRAJOLA BERLIOZ

Frajola foi um anjo que passou rápido em nossas vidas, um sopro de brisa leve de primavera.
Nós o encontramos em outubro de 1998, quando já tinhamos conosco a primogênita Mel.
Desde o início, a sua história foi dramática. Estávamos na varanda do apartamento, quando vimos no pátio do prédio em frente uma coisinha preta e branca que miava muito.
Ao mesmo tempo em que o vimos, vimos também o porteiro do prédio andando em sua direção com uma pá... Apavorados e sem pensar, começamos a gritar, e minha irmã desceu o mais rápido que pode, a fim de evitar a tragédia que julgávamos iminente.
Entretanto, o homem só estava carregando a pá para um monte de cimento que havia na lateral do prédio. Mas viu o gato e o colocou em cima do muro, que era bem alto. Enquanto isso, estávamos todos torcendo para que minha irmã chegasse logo até lá.
O gato desceu do muro, e quando viu, o porteiro o pegou e levou para a casa do lado, tentando enfiar o bichinho por entre as grades do porão. Sabíamos que ninguém morava ali, e que ele morreria com toda certeza. E minha irmã atravessou a rua correndo, tomando o gatinho das mãos do homem e trazendo-o para casa.
Não pensavamos em ter mais de um gato. Aliás, já tínhamos tentado por duas vezes trazer outro gato, mas em uma das vezes a Mel quis matar a gata que trouxemos, e na outra... Bem, a outra pareceu coisa de filme, era um gato enlouquecido que correu pela casa atrás de mim e da pequena Mel (apavorada) para nos morder. Coisas de gateira inexperiente...
Mas estranhamente, assim que viu Frajola, Mel não esboçou nenhuma reação agressiva; ao contrário, pareceu gostar dele. Consideramos isso um bom sinal e resolvemos ficar com o gatinho... Que era lindo, peludo, meigo, um amor, o gato dos sonhos de qualquer um.
No entanto achei estranho o jeito dele respirar, arfando. No dia seguinte o levamos em uma clínica veterinária diferente da habitual, onde ele foi examinado e a veterinária nos assegurou que ele tinha a saúde perfeita, apesar de ter deixado escapar durante o exame que parecia ouvir o coração dele bater com mais força de um lado... Como ela me garantiu que não era nada, não me preocupei.
Oito dias depois, eu estava de volta à clínica, desesperada. De repente, o pequeno Frajola, que brincava com seus brinquedos, começou a miar e deitou sem forças no chão, e em poucos minutos ( o tempo em que me arrumava ), deixou até mesmo de miar, conseguindo apenas abrir a boquinha como num pedido desesperado de socorro. Eu via que ele estava sofrendo, via a dor naqueles olhinhos...
Foi horrível, a pior coisa que já me aconteceu. Cheguei com ele na clínica por volta das 10 da manhã. Saímos de lá com ele perto das 10 da noite, sendo que durante todo esse tempo ele foi espetado, radiografado, examinado de todo jeito, virado para cima e para baixo, tomou soro, foi anestesiado, enfim, tudo se fez com meu pobre anjinho e não se chegou a conclusão nenhuma.
Se houve má fé, um tremendo azar, ou simplesmente foi um erro grosseiro por parte de uma veterinária totalmente ignorante em matéria de felinos, não sei. Infelizmente me pareceu mais ter sido esta última hipótese.
Ao fim de tantas horas de sofrimento, nas quais ele certamente sofreu muito mais do que qualquer criminoso mereceria, horas nas quais eu chorei, gritei, solucei, me desesperei por não ter como ajudá-lo, por não ter dinheiro, por não ter poderes para curá-lo... Depois de tudo isso nos mandaram para casa, porque não havia como deixá-lo ali...
E meu Frajola, meu bebezinho amado, meu gatinho tão doce e tão bom, morreu dentro do táxi que nos trouxe de volta, na porta de casa...
Não dá para descrever a dor que eu senti. Não dá para descrever como foi aquela subida trágica para o apartamento, com aquele corpinho tão querido ainda quente em meus braços. Não dá para descrever a mágoa, a decepção, o sofrimento pelo sofrimento dele... E por não ter sido capaz de salvá-lo. Somente quem já amou assim e já sofreu assim sabe do que estou falando.
O sofrimento foi tamanho, que resolvi que jamais pegaria outro gatinho na rua... O que evidentemente não aconteceu. Mas antes disso, veio Trinny.

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